O homicídio é uma das principais causas de morte em muitos países, e evidências crescentes sugerem que variações de curto prazo na temperatura ambiente, especialmente temperaturas elevadas, podem estar associadas a um maior risco de homicídio. A América Latina é a região mais violenta do mundo; no entanto, o conhecimento sobre as relações entre temperatura ambiente e mortalidade por homicídio na região ainda é limitado.
Realizamos um estudo com desenho de série temporal de casos utilizando modelos quase-Poisson condicionais e modelos não lineares de defasagem distribuída para estimar associações de curto prazo (0–7 dias de defasagem) entre a temperatura média diária e mortes por homicídio em 307 cidades de sete países da América Latina entre 2000 e 2019.
Durante esse período, foram registradas 1.193.110 mortes por homicídio. Nossos resultados mostraram que temperaturas elevadas estiveram associadas a um aumento no risco de mortalidade por homicídio. A fração excedente de mortes por homicídio atribuível ao calor extremo (≥ percentil 95 da temperatura) foi de 0,61% (IC95%: 0,51–0,72%).
A análise estratificada indicou heterogeneidade mínima entre os sexos e grupos etários. Não houve evidência de que as associações fossem modificadas pelo nível educacional da cidade ou pelo Produto Interno Bruto per capita municipal.
Nosso estudo destaca a associação entre temperaturas elevadas e aumento do risco de mortalidade por homicídio. Esse achado representa uma preocupação relevante, considerando a tendência global de aumento da temperatura ambiental e a já elevada carga de mortalidade por homicídio na América Latina. É necessária maior atenção em níveis local, regional e continental para incorporar questões ambientais nas estratégias de prevenção da violência letal.